sábado, 16 de abril de 2011

SAUDADES DE EDWARD CULLEN




Garoto conhece garota. Garoto é alto, bonito e tem ar de mistério. Garota é charmosa, tira fotos e usa boina. Garoto e garota se apaixonam. Garoto é um alienígena bioluminescente do planeta Lorien. Junte os pontinhos. Vendido (e entregue) como uma versão extraterrestre de CrepúsculoEu sou o número quatro consegue superar todas as expectativas de ruindade, arrombando a porta da irrelevância com os dois pés e uma shotgun. Desleixado e com protagonistas ainda menos carismáticos que os vampiros afeminados de Forks, compila tudo que há de mais desinteressante no universo teen numa amálgama de clichês sem graça, apelo emocional ou alma.

O filme conta a história de "John Smith” (Alex PettyferZzzzz), um alienígena que se refugiou na Terra após ter seu planeta dizimado. Quarto exemplar de sua espécie (os três primeiros foram mortos), ele vive em anonimato, fugindo de um grupo de alienígenas malvados e esteticamente desagradáveis que querem exterminar o resto de seus conterrâneos. Após se mudar para uma pequena cidade de Ohio, ele conhece Sarah (Dianna Agron, dolorosamente OK), por quem se apaixona irrevogavelmente (em um loooongo processo de dois minutos). Acrescente ao romance instantâneo algumas explosões, rajadas de luz azul e uns toques de Roswell e Arquivo X. Estampe os nomes de Spielberg e Michael Bay e, tandam, eis o enredo blockbu$$ter.

Por incrível que pareça, o problema do filme não é o conceito. Até mesmo uma fábula romântica adolescente sem qualquer fundo de verdade pode ser divertida com uma execução OK. Mas, seguindo a tradição de CrepúsculoEu sou o número quatro  parece tão certo de que será acriticamente digerido por garotinhas histéricas que sequer se preocupa em tentar ser bom. O desleixo começa pelo cenário, uma cópia meia-boca da já bastante genérica Forks, e termina com os aliens malvados, uns bichos humanoides com guelras na cara que não são assustadores, repugnantes ou sequer involuntariamente engraçados. A sensação – ou melhor, certeza – é de que os produtores se reuniram, jogaram um punhado de dólares na mesa e simplesmente esperaram eles se multiplicarem em cima do estrogênio alheio.

Para bem ou para mal, Crepúsculo tinha ao menos uma carta na manga: o irrestível (?) Edward Cullen. Embora tenha parecido mais preocupado em sufocar seu sotaque britânico do que em rascunhar algum tipo de atuação, Robert Pattinson dá certo charme – ainda que estético – ao personagem. Seu vampiro é, na pior das hipóteses, absolutamente detestável. Já, Alex Pettyfer (Ryan Philippe + Ben McKenzie – personalidade) não causa nem esse tipo de emoção. Seja pela fraqueza do personagem ou pela fraqueza da atuação, John Smith conquistou seu lugar no Top 5 dos protagonistas mais inexpressivos da história do cinema adolescente. Freddie Prinze Jr. incluso. Bonitinho e nada mais, Pettyfer está fadado a uma vida protagonizando tragédias megalomaníacas de Michael Bay.

A contraparte feminina Dianna Agron (a loiríssima cheerleader-mestra de Glee) provavelmente um dia irá acordar, levar as mãos à testa e esbravejar um sofrido “O que eu estava pensando?”. Consideravelmente bonita e até talentosa, Diana nada pôde fazer para resgatar sua personagem do fundo do abismo dos clichês adolescentes que é a nauseante Sarah. A velha fórmula de pegar uma princesinha e jogar uma boina para disfarçá-la de nerd pode ter dado certo nos anos 90, mas agora, por favor, deem-se ao trabalho de colocar um nariz falso. Onde, aliás, conseguiram encontrar uma boina para vender em pleno 2011? Os conflitos bobos da ex-garota-popular-que-cansa-da-superficialidade-dos-colegas-e-se-converte-à-fotografia fazem Bella Swan parecer o epítome da complexidade emocional.

Coerentemente, o romance principal faz o casal Edward e Bella parecerem Clint e Meryl Streep em Pontes de Madison. Talvez no livro a coisa não seja tão ruim assim – como é o caso de Crepúsculo, inclusive –, mas na tela não há como fugir do ridículo da situação. Na tentativa de injetar mais ação para atrair o público masculino (e o $$), o filme acaba forçando ainda mais a barra do amor fast food. Embora sejam geneticamente capazes de produzir uma belíssima linhagem ariano-alienígena, os protagonistas não têm a química, a convicção ou tempo para nos convencer de toda sua suposta devoção intergaláctica. Em vez de faíscas, dali só saem farpas.

O núcleo de apoio também não ajuda. Tanto os bullies à lá Karate kid (que John Kreese não leia isto) quanto os supostos “bonzinhos” não escapam da mesmice. O “pai” de John Smith (Timothy Oliphant) nada adiciona. A alienígena “número seis”, interpretada por Teresa Palmer, segue todo o figurino moto + jaqueta de couro + cabelo de cama que as garotinhas rebeldes chutadoras de traseiros devem obedecer, prometendo agradar às mais revoltadinhas. A garota, contudo, ao menos oferece uma boa sequência de ação (a final), e provavelmente seria uma protagonista bem menos desinteressante. Já o geek melhor amigo Sam (Callan McAuliffe) esboça quase tanta personalidade quanto... Bem, John Smith.

Sem a leveza dos filmes adolescentes, a mística dos sobrenaturais e o apelo emocional das fábulas românticas, Eu sou o número quatro consegue ser genérico em todos os campos pelos quais se aventura. Nem mesmo os efeitos visuais e as carinhas bonitinhas nos fazer desviar da viagem sem escalas em direção à cidade de Chatolândia, Ohio. A tentativa de injetar ação na história não só falha em se comunicar com o público masculino, como provavelmente custará um naco da audiência feminina pré-púbere que se apaixonou pela melosidade de Crepúsculo. Se por um lado o romance raso entre Barbie e alien Ken deve bastar para carregar o longa pelas bilheterias, é difícil que um adulto são e sóbrio consiga fazer muito mais do que aturá-lo. Eles estão entre nós. E são muito, muito chatos. 

 Fonte:R7

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